Falares, por Saramar

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

TEIMOSA PRIMAVERA


Importa que nasça a flor
e sobre ela,
outras vidas,
em asas de dança,
encenem a colorida valsa
que, sapiens,
esquecemos de trançar.

Importa que venha a chuva,
e viajem as águas
sobre o rumo que traçam
a cada líquido passo.

Importa ainda o amor
e suas flores, suas águas
seus ridículos e rosas e doces tecidos
que teimam em ser,
queimando o ser
a cada primavera.
Saramar

Imagem: Renoir

Domingo, Junho 07, 2009

(A) MAR


Naufrago.
Nos lábios,
uma palavra queima,
acende o líquido reflexo
que me abarca o corpo.

O tempo, coral sem cor
onde ecoa e teima, a palavra.

O tempo detém o passo,
o líquido traço?
Não.

Morro.
Nos lábios,
teu nome.
Saramar

Imagem: Shark

Sexta-feira, Maio 15, 2009

O QUE TE LEVOU DE MIM?


É medo, é pejo
ou acabou o desejo
do ermo noturno
dos beijos?

É medo, é dor
que entranha nos eixos
do dia
ou foi bom e adeus?

É medo da dor,
prima-irmã desse anseio
de tomar a pele do outro
que chamamos amor?

É medo?
Saramar


Imagem: Clive Mealey

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

CARNAVAL


Passeio entre felizes foliões.
A festa despencou pelas ruas, chuva de confetes.
Máscaras não mais se usam,
só a da alegria, em todas as faces, pregada.
Suor colorido de músicas, um choque,
um tremor nessas ruas molhadas.
Beijos escorregam por todos os lados,
lascivos,
de línguas, bocas, pernas.
Procuro rostos, olhos... nada.
É carnaval.
Também fui,
trocando ilusões e lençóis engomados
por tiras coloridas e seu brilho de enganar.
Árvore,
de outra pele me vesti
e a primavera confunde as estações e os sons.
Estou indo esquecer
que a felicidade é um confete no asfalto.

Imagem: Picasso

Segunda-feira, Dezembro 29, 2008

UM ANO... OUTRO


Nasce o dia, outra vida
nasce um ano sobre o outro.
É assim meu coração
jardim teimoso
a nascer todo dia
de única semente plantada
minguada de aridez,
lavada de tempestade.
Nasce o ano, novo
e o dia sobre o outro.
Gemem as horas
de saudade.
Saramar

Imagem: Zoya Mihunova-Anderson

Sábado, Dezembro 13, 2008

O MENINO


Depois,
eram uns meninos no berço
e o grito de suas mães
era um sangue lavando pedras
e um matinho quase seco
que água não corria ali.

De inundação, só lágrimas
de mulheres,
e isso não conta, de tanto se ver.
Mesmo na hora de invadir a luz
com a vida,
com uns olhos cegos de quem pariu,
ouve-se o choro da mulher
e vai abaulando, crescendo em água
nos caminhos onde anda
dos olhos da vida, sal e mágoa
pelos meninos, todos
e os seus.

Eram uns meninos num pedaço seco
da terra
e o choro da mãe.

Não fora a estrela insistente
sobre o berço seco do menino,
não fora o olho de abraçar o mundo,
do menino,
ofuscando a estrela e sua luz,
ninguém diria que, naquela aridez
da alma de todo infeliz,
nascia o Menino Jesus.
Saramar

Imagem: roubei daqui

Terça-feira, Dezembro 02, 2008

CORSÁRIO


Todo amor invade e aflige.
É corsário com mãos de perfume
e cravo crudelíssimo.
Ora flor, ora gemido,
o amor invade os sonhos,
transtorna os dias,
revira a alma,
ri do tempo,
desconhece circunstâncias.
Rei e menino,
o amor brinca na doce aflição
dos sentidos
e marca e fere.
Assim como não se sabe do seu começo,
nunca termina
tatuado a fogo,
para sempre arde e dói
apesar de sua permanência
breve.
Pena de ave sem pouso,
na alma,
para sempre pesa.
Saramar